quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

...

- Vocês ainda estão juntos?

- Não...

- Pôxa, mas... O que houve?

- Ah, é uma longa história...

- Não quer mesmo falar sobre isso?

- Não, não... Deixa pra lá... Você entenderia...

sábado, 26 de novembro de 2011

Procura

Ando procurando

As bebidas mais fortes
Os amigos mais tortos
As maneiras mais torpes
As lembranças mais vivas

Ando procurando

A maneira mais simples
Mais fácil
E menos dolorosa
De fazer a passagem

Ando procurando

Livros, escritos
Sabedoria
Seja ela qual for
Vinda de onde quer que venha
Desde que me esclareça
O que há
Depois

E, mesmo que sem resposta
Eu te espero
Para que, em uma noite qualquer
Leve essa alma
Que não existe
Cujo pensamento
Insiste
Em acreditar no que não há

Ando procurando

A chave
A saída
Para o que não tem solução

Ando procurando

Verdades
Vontades
Desculpas
Para não parar

Ando procurando

Sem esperanças
Ou vontade de encontrar

Ando procurando

E ando pensando tanto
No destino
Na chegada
Que esqueço da viagem

Ainda assim
Ando procurando

Ando procurando.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

...

- O problema é que as pessoas são sentimentalmente burras...

- Pois é...

sábado, 5 de novembro de 2011

...

- Mas ele prometeu!

- Eu sei... Mas, mesmo assim, você não pode culpá-lo...

- Como não? Eu já disse! Ele prometeu!

- Eu sei...

- Então?

- Entenda... Promessas são feitas de vontades, não de certezas...

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Pedaços



Tentando juntar peças
De um jogo perdido
Recomeçando
Do quase zero

É tão difícil

Contentar-se com o incompleto
E viver de pedaços, de restos
De fragmentos do que já foi inteiro

É tão difícil

Tão difícil

Entender que já não há mais o elo
Que a chave que sustenta o conjunto
Se perdeu no tempo
Nos cacos
No amargo

É tão difícil

Espalhar tudo sobre a mesa
E perceber que nunca mais será completo
Que a parte necessária
Aquela que preenche a figura
Está guardada
E trancada
Sob selos, travas e lembranças
Em uma estante de objetos esquecidos

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Elixir

- O que você tem aí?

- Hummm... - O homem examinava os vários frascos na prateleira. - Morte Rápida... Morte Honrosa... Morte Dramática... Morte...

- Tá, tá! Olha... Tem algum que faça você morrer sem que ninguém sofra por isso?

O vendedor riu tristemente. - Ah... Se existisse algum desse tipo, eu não precisaria de nenhum desses outros frascos que estão na minha prateleira... Você não tem ideia de quantos procuram por esse mesmo elixir...


O comprador ficou em silêncio por alguns instantes. Pensou em desistir da compra, mas acabou se decidindo. - Bom... Já que não tem jeito, mesmo, vou de Morte Rápida, então...


O vendedor pegou o pequeno frasco e começou a embrulhar. Aquele, a propósito, era o último daquele tipo no estoque. A semana havia sido boa para as vendas. Era um negócio bastante regular e estável, diga-se de passagem.

Promessas

Vem cá.
Senta aqui,
Me dá sua mão.

Vamos fazer uma promessa.
A mais infantil
E ingênua
De todas as promessas.

Vamos prometer nunca trair
E nem abandonar
Quando mais precisarmos um do outro.

Vamos prometer a felicidade,
Mesmo que não seja eterna,
Mas que exista sempre que puder existir.

Vem cá.
Senta aqui
E promete comigo.

É frágil, eu sei.
Afinal, é tão fácil sair.
Há, inclusive, quem goste de quebrar
Esses elos e correntes que as pessoas inventam.
Seguranças relativas, eu sei,
Mas, se existem,
Não deveriam ser respeitadas?
Nós achamos que sim.
Nós.

Eu sei que você também cansou
Dessas falsas promessas,
Desses amores de vidro,
Das eternidades que passam.
Daquelas pessoas estranhas
E tão cruéis,
Que não sofrem por trair,
Que não choram por perder.

Eu sei, eu sei.
Nisso, somos iguais.
Estamos longe da perfeição,
Mas em meio a isso tudo
Somos perfeitos.
Ao menos,
Um para o outro.

Então, vamos prometer
Que apesar das diferenças,
Seremos idênticos no querer.

Vem cá,
Me dá um abraço.
Esquece o que passou.
Mesmo que, depois, as lembranças voltem
E tudo se perca outra vez.

Se não há razão na vida,
Vamos vivê-la assim mesmo,
Desse jeito meio louco,
Sem motivos, sem porquês.

Se entender é, assim, tão cansativo,
Vamos fazer de conta
Que esquecemos como funciona,
Que não conhecemos as verdades.

Se os sentimentos são miragens,
Meras imagens,
Que seja, então.
Sejamos iludidos.

Vem cá, fecha os olhos e promete
Que todas as noites,
A partir de hoje,
Serão como aquela,
Frias, escuras e incrivelmente felizes.
Promete que todo beijo, de agora em diante,
Será como aquele,
Roubado,
E com um sussurro,
Dizendo que haverá outros,
Tantos,
Muitos.

Eu, juro, estou tentando,
E vou tentar o quanto eu puder.
Vou guardar minhas certezas,
Minhas tristezas,
Pra ver até onde chegamos.

Ainda assim, vem cá,
E não se preocupe se não conseguir prometer agora.
Se não conseguir acreditar na promessa que fez.
Eu, confesso.
Estou tão confuso
E assustado
Quanto você.

domingo, 2 de outubro de 2011

...

- Então você afirma que fez progressos? Entendo... Aliás, acho muito bom. Mas me diga... O que te leva a a crer que você, realmente, fez algum progresso?

- Bem... Acho que o fato de, hoje, não ter mais medo de enlouquecer por causa dos meus próprios pensamentos...

Anjos

Sentados no topo do prédio mais alto da cidade, os dois anjos aproveitavam o fim da tarde para conversar sobre as coisas que haviam acontecido ao longo do dia. Segundo eles, e reforçado pelo consenso geral dos demais anjos, aquela era a melhor hora do dia.

Pessoas voltando para casa, depois de passarem um dia inteiro no trabalho. Mães e pais buscando seus filhos nas escolas. Criminosos à espera da noite para, enfim, poderem começar suas rotinas. O trânsito insano que, impacientemente, aguardava o avançar das horas para ceifar o número necessário de vidas e, da madrugada ao alvorecer, encher os hospitais com moribundos e lamentos. Sem dúvida alguma, aquela era a melhor hora do dia. Pessoas despindo-se dos bons modos e, no conforto e segurança de seus lares, sendo aquilo que realmente são.

- Tsc... Olha lá... – Um dos anjos, com a voz cheia de desdém, indicava uma figura minúscula e colorida em meio à multidão de casacos e ternos escuros. Uma garota de cabelos azuis, quinze anos de idade, com um piercing no lábio inferior, vestindo um moletom vermelho, cujas mangas iam além das mãos, um short jeans azul, desfiado, meia arrastão preta, com alguns furos bizarros, feitos pela própria garota e um par de coturnos. Não mão esquerda, um cigarro. Na direita, a mão da namorada. A namorada, por sua vez, tão jovem e excêntrica quanto a garota indicada pelo anjo.

- Eh... Que figura, hein? – Disse o outro anjo, com um sorrisinho. – E... Hahahahaha! Olha... Tem uma namorada! – O anjo parecia estar se divertindo muito com a cena.

- Deus... – Adael, o anjo que havia notado a garota, ergueu as mãos em direção ao céu ao evocar seu mestre. – Como eu odeio essas criaturas... – O ódio, ao contrário do que se pensava e difundia, exista entre os anjos e, inclusive, em classes mais elevadas.

- Todas? – Perguntou Enael, o outro anjo.

- Não... Na verdade, eu gosto do meu trabalho... Mas há algumas pessoas que... – Adael revirou os olhos e colocou a mão sobre o rosto, em sinal de desaprovação. – Por favor... Olhe para aquilo... – Indicou novamente a garota colorida. Enael, em silêncio, apenas observava e ouvia o colega. – Eu, simplesmente, odeio esse tipo de criatura... Um adolescente, um ser vazio, que ainda não sabe o que quer, não sabe o que vai ser, não tem certeza de nada, mas, aos olhos dos outros, quer ter certeza de tudo... Olhe! Olhe para aquilo! Fumando, como se fosse um adulto... Bebendo, caindo pelos cantos, sendo assediada e violentada pelos “amigos”... – Adael gesticulou, representando as aspas. – Por favor... Ao menos espere ficar um pouco mais crescida para não parecer tão ridícula!

- Ah, Adael... Você sabe como são os jovens... Eles precisam se afirmar... Precisam dizer qual é o seu lugar no mundo... – A voz de Enael era tranquila, quase paternal. Ao contrário de Adael, Enael ainda não havia chegado a tal estágio de desilusão com a raça humana. Ele, diferente de seu colega, ainda se permitia sentir compaixão por todos.

- Eles precisam se afirmar? Hahahahaha! Como? Agindo como idiotas? Ou melhor, agindo como tantos outros idiotas? Desculpe-me, Enael, mas eu não consigo entender como alguém mostra o seu lugar no mundo, misturando-se a uma multidão de semelhantes e agindo assim, de modo tão... Estúpido... Por favor...

- Adael... – Disse Enael, com ternura, repousando a mão sobre o ombro do amigo.

- Não, Enael! Não adianta! Eu não consigo compreender! Mesmo com toda essa sabedoria privilegiada que temos, concedida diretamente pelo Mestre, eu não entendo! Para garotas, é quase uma moda beijar outras garotas, mesmo que no seu íntimo, bem lá no fundo, exista uma repulsa gritando! Enael, meu amigo, eu entendo que há pessoas diferentes, sim. Há espíritos que nascem presos em corpos inadequados, mas esse é um caso diferente. Essas crianças brincam, Enael! Elas brincam com a natureza humana! Os garotos, então... O que é isso? É moda? É um “grito de liberdade”? Ora! Por favor! Então eles estão gritando por uma liberdade que sequer conhecem...

- Talvez seja porque as pessoas não entendem como essa parte funciona... Você, eu e todos os outros seres do nosso mundo sabemos, Adael... Essa questão da sexualidade é algo mutável, algo que...

- Ok, Enael... Eu sei... Mas mesmo assim... Bom, mas que seja! Isso é o de menos! E as drogas? E as bebidas? E aqueles pedaços de metal cravados no corpo?

Enael, com o olhar complacente, olhou para o piercing cravado no lábio da jovem. Os olhos de um anjo, diferentemente dos de um humano, viam muito além. A alma, agredida, silenciosamente pedia que aquele corpo estranho saísse dali. A carne, incomodada, insistia em fechar aquela ferida. A consciência, adormecida, apenas se submetia à vontade cega e furiosa do instinto de autoafirmação. Com o olhar entristecido, voltou-se para Adael. – Acho que começo a entender...

- Deus! Há tanta coisa errada! Há tantos desenganos! Tanta corrupção na história verdadeira! Se fôssemos contar a verdade a eles, Enael, precisaríamos de, pelo menos, três vezes o volume da tal Bíblia, apenas para as erratas dessa história mal contada!

- Mas isso não é culpa dos que estão aqui, hoje, Adael... O erro foi cometido há muitos anos... Culpar o presente pelos erros do passado é como julgar um filho pelos crimes cometidos pelo pai...

- Eu sei, eu sei... Desculpe... Acabei me desviando... É que... É tanta coisa!

- Tudo bem, eu entendo. Sua dor é perfeitamente compreensível. É estranho ver algo tão complexo, tão perfeito ser usado de maneira tão errada, não é?

Adael apenas lançou um olhar confidente para Enael. – Estranho demais. Triste demais, eu diria.

E enquanto os anjos filosofavam acerca da estupidez humana, o sol terminou de descer no horizonte. A noite estava começando e, junto dela, novas histórias também encontravam seus enredos. Novos começos e novos fins. Naquela mesma noite, outros personagens da vida seriam criados e destruídos. Outras gravuras seriam desenhadas nas páginas em branco do tempo, enquanto outras seriam apagadas pela mão imparcial da morte.

- Não quero aborrecer você, meu amigo, mas preciso concluir meu pensamento.

- De modo algum. Por favor.

- Veja aquela jovem, Enael. A jovem sobre a qual falávamos... Agora ela irá para casa. Uma bela casa, diga-se de passagem. A mãe, professora, já vai estar em casa, na sala, provavelmente, esperando pela filha. Essa, por sua vez, vai subir direto para o quarto, sem cumprimentar, sem dar um beijo sequer na mãe. Depois, ao chegar em seu quarto, irá repetir o seu ritual diário, conversando com os amigos, através daquelas máquinas que, ao mesmo tempo, aproximam e afastam as pessoas. E o assunto principal, como sempre, será a falta de compreensão com o seu mundo, por parte dos pais. Ela, provavelmente, difamará o pai, médico, por passar mais tempo no hospital do que em casa. E sabe o que é o mais engraçado? É que o pai, entristecido, não vê a hora de chegar em casa para, em vão, tentar uma aproximação com a filha. Eu escuto, Enael, todas as noites nas preces desse homem, um pedido por mais tempo, por mais chances, por menos trabalho e mais oportunidades para ficar com aqueles a quem ele ama. O curioso é que, tamanha é a preocupação dele com o bem estar da sua família, que, inconscientemente, ele esquece das próprias orações e se atira no trabalho, pensando no futuro, pensando na carreira que a filha nunca vai seguir, mesmo com todo o dinheiro que pretende juntar. Ele reza, Enael, todas as noites, na esperança de que a filha ache seu caminho, mas pede isso em silêncio, pois tem medo de ofendê-la e magoá-la se, por acaso, ela vier a saber o que ele pensa do modo como ela leva a vida. Hoje ele vai sair mais cedo, Enael. Confesso que foi uma surpresa para mim, quando ele teve esse pensamento. Decidiu sair mais cedo para encarar seus medos. Ele está decidido a lutar contra a resistência da própria filha e abraçá-la, a qualquer custo. Hoje ele vai sair mais cedo para chegar em casa e dizer, enfim, que a ama e pedir desculpas pela ausência. Ele vai sair mais cedo, Enael. Você entende? Ele vai sair mais cedo... Mais cedo! – A voz embargada do anjo, ao dizer aquelas últimas palavras, anunciava um pranto dolorido e silencioso. Uma lágrima negra escorreu do canto de um dos olhos do anjo que falava. Enael, em silêncio, contemplou e dividiu a dor do amigo.

- Guarde essa lágrima, Adael. Guarde para depois.

- Sim. Guardarei. Temos trabalho a fazer.

- Sim, muito trabalho.

- Eu sei... É hoje, não é?

- Sim... É hoje, Adael... Como você disse, ele saiu mais cedo.

O trânsito.

Lá embaixo, o fluxo de pessoas começava a ceder espaço ao amontoado de luzes e sons em movimento. Sirenes, buzinas, faróis. Uma marcha monótona, mas cujos pontos de parada e partida nunca se repetiam.

A algumas quadras dali, dentro de alguns minutos o carro de um homem será esmagado e jogado violentamente de cima de um viaduto. O responsável pelo acidente, embriagado, não irá morrer. A vítima, um médico de quarenta anos, morrerá com o segundo impacto, levando consigo as intenções, as palavras e o discurso quase pronto que sua filha adolescente não chegará a ouvir. Seus colegas de trabalho, na mesma noite, estupefatos, lamentarão a sua morte por muito tempo. E, como é natural a qualquer ser humano, alguém dirá, com aquele tom sombrio e profético que sempre impregna as palavras quando se fala sobre a morte, que, mesmo que ele saísse no horário de sempre, aquela era a sua hora de morrer.

sábado, 1 de outubro de 2011

...

- Eu não consigo... Não consigo encontrar meu lugar nesse mundo... Eu já tentei de tudo, mas não adianta! Nada funciona!

- Bem... Talvez você não esteja indo pelo caminho certo...

Ele permaneceu em silêncio por um momento.
...
- Como assim? Estou procurando no lugar errado?

- É... Mais ou menos isso...

Novamente, silêncio.

- Mas onde devo procurar, então?

- Não... Veja bem... - Uma breve pausa para escolher as palavras certas. Ou as menos erradas. - O que eu quero dizer é que, procurar, talvez não seja a solução... Se sua busca não está dando resultados, pode ser porque você não está considerando alternativas... Talvez você esteja esquecendo de um detalhe fundamental. Um detalhe muito simples, mas, ainda assim, fundamental.

Silêncio, outra vez.

- Que detalhe?

- Que o mundo, afinal, pode não ter um lugar para você...

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Qubos


      Bom... Essa imagem, na verdade, é um teste... Não havia postado nenhuma imagem ainda, então resolvi ver como é que ficaria...

      Essa "tirinha" é parte de um projeto que, assim como tantos, acabei abandonando... Quem sabe um dia eu retomo, né? Quem sabe...

      Aproveitando a oportunidade... Quem já acessou meu blog, logicamente, reparou no nome... A verdade é que, quando criei esse espaço, eu tinha em mente colocar apenas contos. Melhor... Apenas contos "escuros", com temáticas mais sérias, como o próprio nome indica... Talvez, no futuro, eu venha a fazer outros blogs pra separar meus textos e trabalhos por categoria... Mas, por enquanto, vou deixando tudo por aqui, mesmo... Os motivos? Bom... O primeiro é que, apesar de tudo, não dá pra ser escuro 100% do tempo. Mesmo que você seja um ser existencialmente desiludido (???), em meio a agonia, surge o humor, o amor (torto, mas surge) e outras coisas que logo vão embora e, enfim... E o segundo motivo é, basicamente, preguiça...

      Finalizando, espero que curtam o que encontrarem por aqui. Seja lá o que for...

Rafael

Já em casa, o rapaz repousava tranquilamente em sua cama. Havia sofrido um acidente com sua motocicleta e, após ter sido levado ao hospital, foi atendido e liberado poucas horas depois. Nada grave, segundo o médico, apenas uma pequena fratura na tíbia. O motociclista, ao atravessar um cruzamento, foi atropelado por um motorista imprudente.

Confortavelmente apoiada em alguns travesseiros, estava a perna direita, imobilizada pelo gesso.

- Nossa! – Espantou-se o pequeno, ao ver a perna do tio envolta naquela casca branca e dura. – Tá doendo muito, tio?

- Não, não. Agora estou bem.

As palavras do tio não pareceram muito sinceras para ele. Sempre que ralava um joelho ou um cotovelo nas suas brincadeiras, a dor era insuportável. Como ele podia não estar sentindo dor com aquela coisa na perna?

- Mas nem um pouquinho? – Insistiu o garoto.

- Ah, um pouquinho, só. Mas já tomei meus remédios e logo, logo não estarei sentindo mais nada.

- Ah! – Disse ele, mostrando-se satisfeito com a resposta mais honesta.

Após um momento de silêncio, o pequeno desviou o olhar do gesso e, timidamente, perguntou. – E depois, tio? Você vai ficar bem? Vai poder andar de moto de novo? – Ele parecia realmente preocupado.

- Claro, claro! – Respondeu o tio, rindo e falando ao mesmo tempo, comovido com a sensibilidade do sobrinho. – O doutor disse que não foi nada demais. O carro que bateu em mim, apesar de ter avançado o sinal, vinha devagarzinho, por isso não me machuquei muito. Mas se o carro estivesse mais rápido... – O tio fez uma cara de assombro. O pequeno, também.

- Que sorte, hein, tio?

- Pois é... Mas, graças a Deus, estou bem. Só quebrei a perna.

O garoto fitou o tio diretamente nos olhos, pensativo, e perguntou. – Graças a Deus?

- Sim, sim! Graças a Deus! Poderia ter sido bem pior!

O pequeno baixou a cabeça, pensativo. Após a breve reflexão, voltou-se para o tio. – Mas o que você fez de errado?

- Como assim? – Perguntou o tio, igualmente intrigado e divertido com a indagação.

- O pastor da nossa igreja disse que Deus só faz acontecer coisas ruins com quem faz coisas erradas... Mas quem fez coisa errada foi o homem do carro, né? Ele também se machucou?

- Hã... Não... Mas é que... – Ele ia explicar que acidentes acontecem, independente da vontade de Deus, mas foi cortado pelo protesto do sobrinho.

- Não!? Mas tio! Como é que...

- Ok, ok! Já chega, meu filho! Seu tio precisa descansar! – O pai, que até então apenas observava a conversa, decidiu que era hora de intervir.

- Mas pai...

- Não, não... Amanhã voltamos aqui, certo? Despeça-se do seu tio e vamos embora. – O pequeno deu um beijo no rosto do tio e saiu do quarto, de mão dada com o pai, tentando acompanhar os passos rápidos do homem.

Enquanto desciam a escada que dava acesso à sala, o pai deteve-se por um momento. Agachou-se, repousou as mãos sobre os ombros do pequeno e, pacientemente, explicou ao filho, fitando-o direta e profundamente nos olhos. – Deus sempre sabe o que faz, filho. Por mais que as coisas pareçam não fazer sentido, às vezes, ele sempre sabe o que faz. Sempre. – O pai terminou o seu breve discurso com um sorriso, tentando inspirar confiança no filho.

- Tá... – O pequeno aceitou a explicação, embora tenha feito isso apenas para não desagradar o pai. Aquele sorriso sempre funcionava e, como o pai esperava, funcionou mais uma vez.

- Pai...

- Hum?

- Eu não duvido de Deus...

- Que bom, filho! É isso, mesmo!

Um momento de silêncio e reflexão.

- Mas às vezes ele também se atrapalha... Né?

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Simples

Juro que não entendo o porquê dessa falta de solidariedade. Se os problemas dos outros são sempre mais simples do que os nossos, ajudar o próximo não deveria ser algo, assim, tão difícil.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Amor em Versos

Canções de amor são tão fáceis de serem escritas... Basta que você diga tudo aquilo que pensa saber sobre a vida e sobre os sentimentos... Não precisa ter certeza de nada, pois ninguém quer ter certeza de coisa alguma... Achar que se sabe tudo sobre todas as coisas é sempre mais fácil... E natural...

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Nascer.
Crescer.
Correr.
Evoluir.
Vencer.
Passar à frente.
Conquistar.
Ser.
Ter.
Fazer.
Chegar lá.
Mesmo sem saber onde lá é.
Mesmo sem saber se há algum lugar.

Descansar.
Morrer,
Com oitenta anos,
Esperando a recompensa
De uma vida bem vivida,
Sem ofensas, sem trapaças.
Um lugar no paraíso,
Com árvores tão verdes,
De panfletos, de novelas,
Sentado ao lado de Deus
E de todos que já foram.
 
Segure na mão de Deus
E não olhe para trás.
Se você olhar, não vai conseguir.
Vai parar.
Vai desistir.
Talvez acorde e perceba
Que não devia ter corrido tanto.
Que não valeu, assim, tanto a pena.
Que só resta lamentar.
Porque você não vai voltar.
Não vai.
Não.

Você foi atiçado,
Impelido a seguir adiante,
Como cão que ataca
Por instinto.
Por ver outros avançarem
Em uma presa que não é sua,
Mas apenas por ser presa,
Fraca,
Ridícula,
Engraçada,
Não precisa de mais nada
Para ser violentada.

A dor cai bem para os fracos.
Para os que ficam.
Para os que param.

Essa guerra nunca foi sua,
Mas você lutava.
Ah! E como lutava!
Com unhas e dentes,
E sangue,
E suor.
Porque um dia te disseram
Que era bonito,
Que tinha que ser assim,
E você acreditou.
Desacreditou.
Mas aceitou
E acreditou mais uma vez.

E agora é a hora.
Você e você,
Na última conversa.
No acerto de contas.
As lembranças da beleza
E das bebidas.
Das noites mal dormidas
Por pura vontade própria.
Da sua garota,
Não mais garota,
Que partiu antes de você,
Como partiram os filhos,
Porque a vida quis assim.

Ou terá sido Deus?

Mas esses, os filhos, são de outra ausência.
Voluntária.
Partiram porque quiseram.
Porque não te querem
Mais.
Porque um dia quiseram,
Precisaram.
Mais precisaram do que quiseram,
Na verdade.
Mas, no fim, dá no mesmo.
Não se explica a tristeza.

Dívidas pagas.
Um último beijo
Em uma foto velha.

Adeus,
Que Deus te espera.
Mas não demore
Mais.
Já se passou tempo demais.
Há muito que você queria
Chegar,
E chegou,
Enfim, o momento.

Nada se mostra.
Ninguém te espera.
Ninguém te abraça.
Nada te resta.

Você chegou lá,
E agora não há mais volta.
Mas pouco importa,
Pois, querendo ou não,
Você ficará.

Meus parabéns,
Disse a vida,
Você chegou lá.

Sejá lá onde for.
Se for algo onde é lá.

Você chegou.
Você chegou lá.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Leviano


- No que pensa, meu amigo? - Disse o rapaz, sentando-se ao lado do robô.

- Nas coisas da vida, eu acho. Há tanto em que se pensar...

- Concordo, concordo. Mas pelo que vejo, é sobre algo em especial, não é? Você me parece muito concentrado para alguém com pensamentos esparsos...

- Sim. É verdade.

- E no que pensa, então?

- Na leviandade dos sentimentos... Tão natural... Tão assustadora... Entende?
Uma pequena pausa antes de continuar. Quando recomeçou, suas palavras saíram impregnadas, carregadas dos mais diversos sentimentos; raiva, dor, tristeza, angústia, decepção. Todos juntos, fundidos em uma só torrente de emoção.
- Nós amamos, deixamos de amar, amamos novamente! Fazemos juras eternas que nunca serão honradas! Esquecemos o inesquecível! Superamos o insuperável! Aqueles a quem tanto queremos em determinado momento, mais além se tornam memórias, apenas. E nem sempre boas, diga-se de passagem! É fato que, quando falamos de amor, existem inúmeras vertentes desse mesmo sentimento. Amor de mãe, amor de pai, de irmão, de amigo... Esses, inclusive, podem acabar desfigurados, também... Mas eu me refiro, mesmo, ao amor entre dois amantes! - O robô parou por um instante, analisando a própria frase. - Amor entre dois amantes... Desculpe a redundância, mas creio que me faço entender, não?

- Claro, amigo... Claro... Continue, por favor...

A máquina recomeçou com o mesmo vigor de antes. - Quantas amizades quebramos por esse sentimento? Quantas histórias pacatas e estáveis rendem-se a momentos de êxtase, de euforia, por nada? Ou por quase nada, melhor dizendo... Afinal, se o que levamos dessa vida são recordações, essas também contam, certo? Mas ainda assim eu me pergunto... Por quê? Por que quebramos essas barreiras, tão poderosas e proporcionalmente tênues? De onde vem esse desejo de subverter a pureza? De transformar risos embriagados e abraços sem malícia em beijos e intimidades? Será que a confidência e a intimidade não podem acompanhar, sem tentação alguma, os amigos?
Uma nova pausa. No recomeço, mais calma. - Bem, creio ter me desviado demais do meu pensamento inicial... Mas é que há tanto com o que se indignar! Peço desculpas, amigo... Não duvido de sua capacidade de assimilação, mas minha alma racional me obriga a não deixar dúvida alguma. Recapitulando: Falávamos da leviandade... Do depois... Daquilo que vem após o final... Sei que sob outra ótica, tudo o que eu disse poderia ser resumido com uma única palavra: superação. Superar as dificuldades e as tristezas para seguir em frente... Mas será, mesmo, superação? Não será esse, apenas, mais um apelido carinhoso para a inconsequência? Aliás, não sei se esse seria o termo correto, também... Banalidade? Frivolidade? Desconsideração, talvez? É até difícil definir, pois não sei se soterrar o passado é algo instintivo ou racional... - Seus olhos opacos, perdidos em algum lugar à sua frente, deixavam claro que ainda havia muito a ser dito, que pensamentos e reflexões engalfinhavam-se em sua mente, disputando a titularidade daquela consciência, mas que, por ora, aquilo era tudo.

Uma fisgada de culpa se fez sentir no peito do jovem. Ele era humano. Humano e leviano, como todos os humanos. A vergonha revirou-se no estômago do rapaz, tentou subir pela garganta e sair pela boca, mas foi engolida seca e duramente. Ele respirou e permaneceu em silêncio por alguns instantes. O que poderia dizer? Com o que rebateria os questionamentos do amigo? Respirou fundo, ficou em silêncio por alguns momentos e, em seguida, fez aquilo que as pessoas fazem de melhor: dissimular. O rapaz riu e repousou o braço nas costas do amigo, dando-lhe tapinhas no ombro. Falou em tom igualmente terno e zombeteiro.
- Ah! Nossa! Mas que discurso! Aliás, que belo discurso, hein? Vou precisar de um bom tempo para processar tanta informação... - Mentira. Ele apenas não queria dizer nada. Não estava disposto a entrar em uma guerra perdida. - Por acaso está apaixonado, meu amigo? Ou será que esteve?

- Bem, já estive, sim, mas...

- Ah! Agora entendo!

- Entende? Mas...

- Tudo bem, tudo bem! Não precisa dizer nada, amigo! Dessas coisas do coração eu entendo! - Ele não entendia e sabia disso, mas preferia acreditar que entendia, assim como a maioria.

- Bem, não seriam do coração, exatamente... Acho que seriam mais... - Ele iria dizer "razão", mas foi atropelado, novamente.

- Amigo! Veja só! - A raiva quase escapou, mas foi abafada pela falsa tranquilidade. - Não se desgaste tanto com isso... Você nem ao menos é humano! - O rapaz abriu um largo sorriso. O robô não retribuiu. Ao contrário do que ele esperava, o sorriso não descontraiu, nem colocou um ponto final.

- Concorda comigo? Concorda que você não é humano?

- Sim. - Havia tanta coisa por trás daquela resposta curta.

- Então? Deixe isso pra lá! Apenas viva!

- Eu gostaria, mas não consigo.

- É claro que consegue! Todos conseguem!

- Eu deveria conseguir, mas não consigo. Eu realmente deveria! Afinal, se fui feito seu semelhante, eu deveria pensar e agir como você, não? Como todos vocês! Isso é, no mínimo, curioso! Por que, então, eu penso diferente? Por que não consigo apenas ignorar e seguir em frente? Por quê? Seria tão mais simples aceitar as coisas como elas são, ou como parecem ser! Diga-me, amigo! Diga-me! Por que não posso ser como você? - Em sua voz já não havia a angústia de antes. As palavras, agora, eram ditas com uma ingenuidade tocante, quase infantil.

O rapaz levantou-se lentamente. Uma estranha sensação apoderou-se de seu interior. Sentia sua cabeça coçar por dentro, como se milhares de pequenos bichinhos o roessem lenta e dolorosamente, provocando um chiado ensurdecedor, capaz de abafar seus próprios pensamentos. Ele sentia a dor de uma nova idéia, penetrando e dilacerando sua mente petrificada. Visões opostas travavam uma batalha cruel e sangrenta. E esse sangue, muito amargo, escorreu e afogou sua língua, a qual cuspiu palavras tão amargas quanto o próprio sangue derramado.

- Bem... - Disse o jovem, dando as costas ao amigo, tentando demonstrar firmeza.

- Você sabe o que há de errado comigo, amigo!?

- Não. Mas você, sem dúvida alguma, está com defeito.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Rachel

Rachel despertou, mas permaneceu imóvel na cama. Os braços estendidos, as pernas entreabertas e a cabeça voltada para cima, deixavam claro que a garota havia acordado na mesma posição em que dormira, após ingerir alguns de seus calmantes. Alguns a mais do que costumava tomar. Alguns e um pouco de álcool, na verdade.
Enquanto olhava fixamente para o teto, as lembranças da noite anterior voltavam à tona. Pequenas manchas de umidade pareciam tomar vida e forma, enquanto seus pensamentos se organizavam. Se ainda estivesse sob efeito da bebida e dos remédios, diria estar tendo alucinações, mas não. Era apenas fruto de uma vista cansada e de uma cabeça funcionando num ritmo veloz. Veloz demais para quem havia acabado de acordar.
Rachel fechou os olhos por um momento, tentando se livrar do leve enjoo que insistia em lhe perturbar. Respirou fundo, abriu novamente os olhos e deixou a cabeça pender para um dos lados. Olhou para o relógio ao lado de sua cama, sobre o criado mudo. Os números vermelhos marcavam 14:37. Voltou a olhar para o teto e, em seguida, pendeu a cabeça para o outro lado. Dessa vez, o corpo acompanhou. A jovem encolhera-se na cama, colocando ambas as mãos sob o travesseiro e dobrando as pernas, ficando em uma posição quase fetal. Rachel sentiu seu corpo inteiro formigar. Riu e fez caretas, ao mesmo tempo, enquanto esperava a sensação desagradável passar. Pensou em quanto tempo havia dormido e se, realmente, havia passado toda a noite na mesma posição. Não lembrava ao certo a que horas fora dormir, mas sabia que havia sido um pouco depois do fim de seu encontro.
Já com o corpo totalmente desperto, sentou-se, com as costas apoiadas na guarda da cama. O quarto escuro parecia ser o cenário ideal para que mais lembranças lhe viessem à mente. Rachel não havia esquecido do que acontecera, mas era como se determinadas partes de suas memórias tivessem uma importância maior, e eram justamente essas partes que insistiam em ressurgir e fazer com que a garota se lembrasse e tivesse consciência dos fatos e das consequências de tudo o que havia acontecido e, principalmente, do que ainda viria a acontecer.
Um arrepio percorreu o corpo da garota ao tocar o piso frio e liso. Levantou os pés e abraçou o próprio corpo, enquanto olhava ao redor, procurando suas pantufas. Logicamente, elas não estariam ali. Antes de dormir, Rachel não havia tirado nem mesmo suas roupas. Ainda vestia a mesma calça de moletom cinza, folgada, e uma blusinha branca de mangas curtas. Aos pulos, chegou ao outro lado do quarto e começou a bisbilhotar uma sapateira. Finalmente, encontrou as pantufas e as calçou. Pegou um pequeno casaco azul de lã que estava pendurado no cabide e o vestiu. Sem mais se deter, abriu a porta do quarto e saiu, esperando que as malditas lembranças não a acompanhassem, mas isso não aconteceu.
Após atravessar um pequeno corredor, Rachel chegou à sala. As paredes brancas, decoradas com alguns quadros, pareciam desbotadas e sem vida, bem como as fotos nas molduras. Aquela tarde nublada de sábado, com a sua luminosidade opaca, havia se encarregado de tornar mais lúgubre, ainda, o que já era triste. Por alguns instantes, Rachel permaneceu imóvel, olhando fixamente para a mesinha de centro, onde ainda estavam as taças sujas de vinho e as garrafas vazias. Depois, voltou seu olhar para o sofá. Uma cadeira e um pufe, ainda amassado, completavam o cenário. A garota fechou os olhos e se deixou levar pelas lembranças, mesmo não querendo.

* * *

Na noite passada, Rachel havia preparado uma pequena surpresa para Jonas, seu namorado. Talvez ele não se lembrasse, mas naquela sexta-feira, completariam um ano e cinco meses juntos desde que se conheceram. Ela costumava chamar essa data de “aniversário de primeiro encontro”, embora não fosse um aniversário propriamente dito, pois ela fazia questão de comemorar a data mensalmente. Rachel já havia se acostumado com o jeito desatento de Jonas, por isso não se incomodava mais quando ele deixava passar em branco algum momento especial. Ao invés de se zangar, Rachel aproveitava para fazer algo que o surpreendesse: Um jantar, uma noite especial ou, até mesmo, um jogo sensual. Coisas de namorados. Dessa vez seria algo mais simples, mas igualmente interessante. Um vinho, algumas massagens e uma noite inteira para ambos. Iriam se encontrar às 23:30, como sempre. Um pouco depois que as aulas na faculdade terminassem.
Eram quase nove horas da noite quando Jonas ligou. Parecia nervoso ao telefone, falando rapidamente e atropelando palavras. Dissera apenas que precisava conversar com ela e que tinha algo muito importante para dizer. A princípio, Rachel assustou-se, tanto pela hora da ligação, como pelo modo como Jonas havia falado: Conversar. A palavra pareceu mais séria do que de costume. Se ele tivesse dito apenas que precisava falar com ela, Rachel se sentiria mais calma. Depois, riu de si mesma por dar tanta importância a uma única palavra. Aos poucos, foi tentando se acalmar. Imaginou bons motivos para o aparente nervosismo do namorado. Há alguns dias atrás, Jonas havia falado sobre noivado e alguns planos para o futuro. O fim da faculdade, o novo emprego e, para surpresa de Rachel, filhos, e foi nisso que Rachel se apegou. Mesmo ainda nervosa, Rachel quis acreditar que, quase que por um milagre, Jonas havia se lembrado do dia especial e usaria a data para dar o próximo passo: O noivado.
Às 21:12, Rachel ouviu a campainha tocar. Levantou-se do pufe e foi atender. Espiou pelo olho mágico e viu Jonas, tentando espiar de volta. A garota segurou o riso e, depois de esperar que Jonas chamasse pela segunda vez, abriu a porta, sorrindo.
- Posso entrar? – Perguntou Jonas, esfregando as mãos trêmulas.
- Claro... – Respondeu Rachel, sorrindo.
Jonas ficou parado, olhando para a namorada.
- Não vai entrar? – Perguntou Rachel, sem entender a reação de Jonas.
Jonas entrou no apartamento, deu alguns passos e virou-se para Rachel, que o acompanhava com os olhos. O rapaz colocou as mãos nos bolsos da jaqueta e respirou fundo, buscando fôlego e coragem para prosseguir. Rachel fechou a porta atrás de si e deu alguns passos até o namorado, ainda sorrindo. Ela podia ver pequenas gotas de suor em sua testa. Sentia sua respiração ofegante. Tocou no peito do rapaz, sentindo seu coração bater freneticamente. Jonas recuou, como se o toque da jovem o afastasse. O pouco de esperança que Rachel ainda tinha em receber uma boa notícia acabara naquele momento.
- O que foi? – Perguntou a garota, desfazendo completamente o sorriso.
- Uma vez você me disse que, acima de tudo, deveríamos ser sinceros um com o outro... – Respondeu Jonas, rapidamente, procurando encerrar aquela conversa difícil.
Uma lágrima rolou pelo rosto de Rachel, até parar em seus lábios, duramente cerrados. Jonas parecia cada vez mais pálido e nervoso. A garota levou uma das mãos até a boca e, com a voz embargada, perguntou:
- Há quanto tempo você... ?
Jonas arregalou os olhos ao ouvir a pergunta de Rachel. Ele não precisou dizer mais nada para que ela entendesse a situação toda. De certa forma, Jonas sentiu-se aliviado por isso.
- Três meses, mais ou menos... – Respondeu ele, depois de um breve silêncio.
Rachel fechou os olhos e suspirou. Abriu-os, novamente e perguntou:
- Com quem?
- Rachel... Por favor... – Disse Jonas, visivelmente constrangido.
- Com quem!? – Vociferou, Rachel.
- Helena... – Respondeu Jonas, em um tom quase inaudível.
Rachel colocou as mãos na cintura, enquanto olhava para o chão e começava a rir. Andou pela sala, acompanhada pelo olhar de Jonas que, sem sair do lugar, apenas girava o corpo para poder observá-la. Deu mais alguns passos e atirou-se sobre o pufe, colocando a cabeça entre as mãos. Jonas sentou-se no sofá, recostando-se e apoiando a cabeça na parede, com os olhos fechados. Rachel espiou por sobre seus braços, procurando o relógio da sala. Eram 21:27. Olhou para a estante e viu um pequeno volume dentro de um envelope pardo. A garota levantou-se com um pulo e foi até a estante. Pegou o envelope, olhou novamente para o relógio e foi para perto da porta. Jonas, sem entender, apenas observava. A garota enxugou as lágrimas e colocou a mão sobre a maçaneta da porta. Às 21:29, a campainha tocou novamente. Ignorando o olho mágico, Rachel abriu a porta e fez sinal para que a visita entrasse.
Helena, sempre pontual, viera buscar alguns livros com a amiga. Assim que a amiga entrou, Rachel trancou a porta, guardou as chaves no bolso da calça e foi até a cozinha buscar as taças e as garrafas de vinho que havia reservado para aquela ocasião.

O resto da noite transcorreu de uma maneira que nenhum dos três poderia imaginar. Sem gritos. Sem escândalos. Sem brigas ou discussões. Apenas o silêncio, olhares e algumas perguntas. Se eles soubessem o quão maçante seria permanecer em um ambiente com aquele clima por tanto tempo, teriam escolhido o caminho mais direto e violento de resolver as coisas.
Helena, sentada em uma cadeira, apenas chorava e soluçava. Jonas, bastante tonto, apenas respondia o que lhe era perguntado e voltava a beber. Rachel, atirada sobre o pufe, perguntava sobre o relacionamento dos dois. De vez em quando, Rachel chacoalhava o molho de chaves em sua mão, lembrando a todos que a porta estava trancada e que não havia outro meio de sair do apartamento, a não ser, é claro, que algum deles optasse por pular da janela do 7º andar.
Por volta das 02:30 da manhã, Rachel decidiu terminar a reunião. Bebeu, com um único gole, o resto do vinho em sua taça e levantou-se. Deu alguns passos em direção ao seu quarto e, antes de continuar, jogou as chaves no sofá, ao lado de Jonas.
- O último a sair, por favor, feche a porta... – Disse Rachel, sem olhar para os demais.
Deu as costas a ambos e entrou em seu quarto. Ao fechar a porta, pôde ouvir que Helena e Jonas discutiam. Continuou em pé, atrás da porta, escutando os argumentos de cada um. Helena o culpava por ter sido tão precipitado. Jonas a reprimia por não ter dito que viria ao apartamento de Rachel. Por fim, a garota escutou o barulho de um tapa, seguido de um baque forte. Fez-se um silêncio total. Helena havia saído e deixado Jonas ali. Rachel pensou que ele poderia entrar em seu quarto e tentar algo, mas logo essa ideia se desfez. Ouviu, claramente, uma garrafa vazia sendo colocada sobre a mesa e, logo em seguida, a porta da sala sendo aberta e fechada outra vez. O silêncio tomou conta de tudo novamente. Rachel sabia que ainda teria de pensar muito sobre tudo o que acontecera, mas não ali, não agora. Já tinha tido o suficiente para uma noite só. Queria dormir logo e, talvez, acordar no outro dia.
Rachel voltou à sala, trancou a porta e pegou a taça que havia servido para Helena, a qual não havia bebido. Foi até o banheiro, abriu o armário da pia e encontrou um pequeno frasco de vidro. Eram calmantes. Rachel costumava tomar um ou dois quando não conseguia dormir. Não eram fortes, na dose correta. A garota retirou a tampa e despejou alguns em sua boca, engolindo-os com um pouco de vinho. Restaram poucos, os quais Rachel terminou de engolir com o que havia sobrado da bebida. Largou a taça sobre o armário e foi para o seu quarto, jogando-se sobre a cama. Aos poucos, sua consciência ia sumindo e, para seu alívio, levando consigo as lembranças daquela noite.

* * *

Rachel abriu os olhos lentamente, como se voltasse de um estado de transe e ficou observando a sala por alguns instantes. Atravessou-a e logo estava na cozinha. Acendeu uma das bocas do fogão e pôs um pouco de água para aquecer. Enquanto Rachel preparava seu café, pequenas gotas de chuva começavam a escorrer pela janela, em frente à pia. A garota acompanhou uma das gotas percorrer todo o vidro até sumir de vista. O silvo da chaleira fez a garota desviar sua atenção da chuva.
- Droga... Ferveu... – Disse Rachel, desligando rapidamente o fogão.
A garota derramou um pouco da água quente em sua xícara e completou com água da torneira. Fez uma cara de repulsa, imaginando que seu café não sairia tão bom quanto esperava, mas surpreendeu-se. A bebida parecia estar melhor do que nunca. Rachel adorava café e, sempre que podia, bebia. Ela havia passado mais tempo do que costumava sem tomar uma xícara, e talvez isso explicasse porque o achara tão bom naquele momento. A garota fechou os olhos e deixou que os prazeres daquela bebida operassem seus milagres. O calor da xícara tomou-lhe as mãos. O cheiro e o gosto forte inundaram seus sentidos. Rachel fechou os olhos e demorou um pouco a engolir o café, tentando tirar o máximo de sabor daquela pequena porção. Por fim, engoliu. O líquido pareceu descer de maneira aveludada por sua garganta, fazendo com que a garota experimentasse uma peculiar sensação de bem-estar e aconchego, ao mesmo tempo. Pressionou a língua contra o céu da boca, querendo tirar tudo o que podia de sabor daquele primeiro gole. Quando encostou os lábios na xícara novamente, a campainha tocou.
- Céus... – Disse Rachel, visivelmente chateada, soltando a xícara sobre o balcão.
Rapidamente, foi à sala e abriu a porta, sem sequer espiar pelo olho mágico. À sua frente, ensopado, com os cabelos colados ao rosto pálido e os lábios arroxeados, Jonas a fitava com um semblante triste e abatido. Rachel encheu o peito de ar, mas, antes que pudesse dizer algo, Jonas interpelou:
- Posso entrar? – Perguntou Jonas, com um tom de voz firme que em nada combinava com seu aspecto frágil naquele momento.
Rachel ficou em silêncio por alguns instantes, olhando fixamente para Jonas. Em seguida, balançou os ombros e estendeu um dos braços, indicando o interior da sala para o jovem. Em seus pensamentos, Rachel questionava-se sobre o fato de ter deixado o ex-namorado entrar. A garota estava duplamente surpresa. Primeiramente, pelo modo conciso de Jonas falar e agir e, em segundo lugar, pelo fato de ele ter voltado tão cedo, depois dos últimos acontecimentos.
Rachel não sabia, ao certo, o que dizer, o que pensar e nem como agir. Apesar de tudo, de todos os sentimentos e pensamentos confusos dentro de si, Rachel estava curiosa. Curiosa com a visita de Jonas. Curiosa com o que viria a seguir. E foi a curiosidade de Rachel que a fez permitir a entrada de Jonas.
Sem dizer nada, Jonas entrou. Rachel fechou a porta atrás de si e virou-se para Jonas, que a encarava, sem piscar. Rachel, novamente, puxou o ar e preparou as palavras, mas foi subitamente interrompida por Jonas, que avançou em sua direção, tomando-a em seus braços e calando-a com um beijo.
Rachel, primeiramente, tentou reagir. Deu tapas nas costas do rapaz, colocou suas mãos no peito de Jonas, tentando afastá-lo, mas acabou por desistir. Rachel sentia, ao mesmo tempo, raiva e nojo. Raiva de si mesma, por ter se entregado tão fácil a alguém que a havia traído. E nojo de Jonas, por saber que, durante tanto tempo, beijara outra boca que não a sua, sem sentir remorso algum por isso. Mas Rachel não se sentia apta a questionar, discutir ou decidir. Escondeu seus sentimentos negativos e deixou que a própria situação definisse o seu final. Momentos depois, estavam no sofá, ambos nus, amando-se torridamente, como se o passado não existisse ou, pelo menos, não importasse.

O fim da tarde surpreendeu a ambos. O tempo parecia ter passado mais rápido desde a chegada de Jonas. Com um misto de normalidade e constrangimento, despediram-se, trocando beijos e abraços, mas sem palavras. O silêncio era uma saída, embora não muito clara, para aquietar e organizar os pensamentos naquele momento. O rapaz se fora. Rachel jogou-se novamente no sofá, com cansaço de sobra e pouca vontade para tentar entender e digerir tudo o que havia acontecido entre os dois naquela tarde. Logo, adormeceu.

Batidas rápidas e vigorosas fizeram Rachel acordar. Ficou em silêncio por alguns instantes, como se quisesse ter certeza de que os sons vinham de sua porta. Logo, ouviu a campainha tocar, seguida de mais batidas. Rapidamente, levantou-se do sofá e cruzou a sala com passos silenciosos, abafados pela maciez de suas meias. Antes de abrir, espiou pelo olho mágico e, com surpresa, viu Helena do outro lado. Por um momento, hesitou. Pensou em dar as costas e fingir que não havia ninguém no apartamento. Afastou-se da porta, recuando alguns passos. Mais batidas na porta. Rachel assustou-se com o barulho e, como se ele fizesse seus pensamentos definirem-se, avançou em direção à porta e a abriu num movimento rápido e firme. Não demonstrou surpresa ao ver a garota à sua frente, pois já sabia de quem se tratava. Helena, com os olhos avermelhados, as sobrancelhas inclinadas e os lábios contraídos, desabou sobre a amiga, chorando, enquanto a abraçava e tentava pedir desculpas, em meio a soluços e engasgos. Rachel não retribuiu o abraço. Na verdade, não conseguiu apresentar reação alguma diante daquela cena. Os sentimentos negativos por Helena ainda perduravam, mas, frente àquela situação, Rachel sentia-se mais confusa do que rancorosa. Aos poucos, deixou aflorar o pouco que ainda restava de estima pela amiga e, lentamente, a abraçou. Permaneceram assim por alguns instantes, até que Rachel segurou Helena pelos ombros e a afastou, procurando fixar seus olhos nos da garota.
O que aconteceu? – Perguntou Rachel, tentando demonstrar frieza em suas palavras, mas visivelmente preocupada com a amiga.
- Jonas... – Disse Helena, recomeçando a chorar.
Um arrepio percorreu o corpo de Rachel ao ouvir o nome do ex-namorado, fazendo-a tremer dos pés à cabeça. Colocou as mãos na cintura e baixou a cabeça, fechando os olhos. Lembrou-se de tudo o que havia acontecido naquela tarde. Os beijos, as palavras, os sentimentos. A esperança, mesmo que ínfima, de um recomeço. Aos poucos foi se acalmando e organizando os pensamentos. De repente, tudo pareceu muito claro e óbvio para Rachel: Antes de vir procurá-la, Jonas havia terminado com Helena que, por sua vez, viera buscar consolo. Porém, nem tudo fazia sentido. Rachel não compreendia como Helena conseguia ser tão inconsequente ao ponto de pedir ajuda a quem havia traído. No entanto, não se ateve a detalhes. Agora, sentia-se repleta de um sentimento que experimentara poucas vezes. Um misto de triunfo e superioridade.
- É... Eu imaginei... – Disse Rachel, com um sorrisinho cínico. – Mas convenhamos. Você já devia imaginar que...
- Ele morreu... – Interpelou Helena, num tom quase inaudível.
Rachel levou as mãos à boca. Seus olhos encheram-se de lágrimas.
- O quê!? – O grito de Rachel saiu abafado por suas mãos. – Não pode ser! Não pode ser! Ele... Eu...
Helena parecia um pouco mais controlada. Respirou fundo e secou os olhos com umas das mãos, depois, abraçou a amiga. Toda a tristeza que havia em Helena parecia estar em Rachel, agora. Ela compreendia a dor da amiga, mas não em sua totalidade. Helena sequer cogitava a hipótese de Rachel e Jonas terem se encontrado poucas horas antes de sua chegada.
- Eu tentei te avisar, mas seus telefones pareciam estar desligados. Não pude vir mais cedo. Fiquei o tempo todo com os pais de Jonas, ajudando na liberação do corpo, nos preparativos para o velório, no transporte dos familiares, enfim. – Sussurrou Helena, passando uma das mãos pelos cabelos de Rachel.
- Como aconteceu? – Perguntou Rachel, depois de um tempo em silêncio.
- Acho que perdeu o controle da direção. Não sei ao certo, só sei que foi de carro... – A voz de Helena voltava a ficar trêmula.
Rachel lembrou-se da chuva. Fechou os olhos e, contra sua própria vontade, imaginou a cena. O carro derrapando, indo de encontro a um muro ou um poste. O rosto ensanguentado sobre o volante.
- Ele nunca havia feito isso... Nunca! – A voz de Helena tinha um tom de indignação.
- Feito o quê? – Perguntou Rachel, sem entender a observação da amiga.
- Beber e dirigir, ora... Ah, desculpe... Eu não disse, não é? – Helena parecia constrangida.
- Disse o quê!? – Rachel segurou a amiga pelos ombros, afastando-a.
Helena arregalou os olhos e fitou a amiga, com surpresa. Rachel não parecia a mesma que chorava, momentos antes.
- Bom... A polícia disse que ele havia bebido bastante... E que por isso... - Disse Helena, até ser interrompida pela amiga.
- Mas como assim!? – Gritou Rachel, levando as mãos à cabeça. Nada daquilo fazia sentido para ela. Onde e por que Jonas teria bebido, depois do encontro à tarde?
- Rachel! – Gritou Helena, segurando firmemente a cabeça da amiga. – Ele estava fora de si, bebeu demais, correu demais e... Enfim... Aconteceu.
Rachel olhava para Helena, sem dizer nada, como se esperasse algo mais da amiga. Por mais que tentasse tirar conclusões, não conseguia. Imaginou inúmeras hipóteses, mas nenhuma lhe pareceu coerente. Helena, vendo o quão confusa Rachel estava, decidiu resumir a história, mas, assim que abriu a boca para falar, Rachel a interrompeu.
- E quando aconteceu? – Perguntou Rachel, procurando algum nexo em sua própria pergunta.
Helena, primeiramente, a olhou com certa estranheza. Após um breve silêncio, desviou o olhar, respirou fundo e voltou a olhar para a amiga.
- Ontem à noite... Três e pouco da madrugada, eu acho. – Disse Helena, sem compreender a expressão de pavor no rosto de Rachel.

domingo, 24 de julho de 2011

...

- Eu gosto de você, sabe? Gosto do seu jeito, gosto dos seus pensamentos... Você não tem preconceitos... Para você, todos parecem iguais... Você não julga, não xinga, não menospreza... É verdade que nunca te vi elogiar, mas, no geral, isso faz sentido... Você parece tão... Eu não sei... Eu não diria bondoso... Imparcial, talvez? Essas questões humanas, tão humanas, parecem tão simples pra você... Não sei, ao certo, se você as entende ou não, mas acho interessante como você lida com isso...

- Bem... Na verdade, eu entendo, sim... Mas não me importo... Para mim, pouco importa a sua cor, a sua crença... Não me interesso pelos seus pensamentos, suas ideias... Entende? Tanto faz onde você nasceu, tanto faz quais são seus ideais e seus sonhos... A humanidade é igualmente podre, onde quer que nasça e exista... Basta um copo de álcool para que você mostre o que você é... Alguns, inclusive, nem precisam do copo para isso... Mas, basicamente, é isso... Não é que eu não entenda essas questões humanas... Eu apenas não me interesso por elas.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Amigos


Amigos há algum tempo.
Não o bastante para apenas e nem tão pouco para mais.
- É engraçado como a vida acerta com erros, às vezes.
            Quando a filosofia não explica, ela preenche, atiça ou dissimula.
- Como assim?
- Você, por exemplo... Não pode enxergar...
Ela baixou a cabeça, tentando esconder o rosto com algumas mechas do cabelo.
- E onde está a graça, nisso?
- Bom... Eu sou um cara legal, mas não sou tão bonito, assim...
Ela tentou ficar séria, mas suas palavras saíram misturadas ao som gostoso de um riso abafado.
- É mesmo?
            Ele era legal, mesmo. E, realmente, não era tão bonito, assim.
- É... E você é chatinha, mas é linda... E eu enxergo... Enfim, não é perfeito?
Ela não era chata. Mas era linda, com certeza.
- Você é um idiota... – Ela balançou a cabeça de um lado para o outro, fingindo aborrecimento.
- Idiota? Ok, então.
- Sim, idiota. A amizade considera beleza?
A amizade. Aquilo, de certa forma, doeu. E o silêncio veio e resistiu por alguns instantes. Para ele, durou bem mais do que isso. Na verdade, ele pensou que seria o fim, mas ela recomeçou. Ainda bem.
- Se fosse possível... Um dia... Você trocaria seus olhos pelos meus?
Ele riu.
- Não sei. Mas uma coisa eu posso te afirmar, com toda a certeza.
- O quê?
- A sua pergunta é mais idiota que eu.
- Ah... Idiota!
Ele riu novamente.
- É sério... Você trocaria?
- Claro que não!
- Nossa... Mas nem por alguns instantes?
- Ah, bom... Nesse caso, sim... - Ele fez uma breve pausa e logo acrescentou.
- Não... Pensando melhor, não. Aliás... Com certeza, não.
- Deus... Isso tudo é medo?
- Claro! - Ele exagerou na força da resposta, propositalmente.
- Medo de que? De que eu não devolva os seus olhos?
- É... também... Mas acho que mais é medo de que você se apaixone!
Ela riu alto.
- Por você? Duvido muito... Você mesmo disse que não é bonito.
- Não. Eu disse que não sou tão bonito, assim. – Ele deu ênfase ao trecho repetido.
- Que seja, que seja... Eu não me apaixonaria.
- Bom, eu me apaixonaria. – Voz esnobe.
- Por você mesmo? Doente! - Ela riu alto, outra vez.
- Não... - Sua resposta saiu de modo tão seco e sincero, que o riso transformou-se em suspiro e, por fim, em rubor.
O silêncio, novamente. Ela recomeçou.
- Então?
            A intensidade da dor é inversamente proporcional à velocidade daquilo que a provoca. Em outras palavras, uma resposta rápida para amenizar a ansiedade.
- Pelos seus olhos. São os mais lindos que eu já vi em toda a minha vida. Você se apaixonaria... Também.
Também. Aquela palavra foi uma sobra necessária.
Nenhum silêncio havia sido como aquele. Não tão forte. Não tão longo. E aquele foi tão poderoso que, só ele, seu próprio dono, conseguiu quebrar e recomeçar. Voltou um pouquinho e insistiu no seu medo preferido.
- É sério... Acho que se você pudesse ver, eu já teria perdido o meu lugar...
Uma pausa para um raciocínio quase lógico.
- Bom... Mas eu não vejo, não é?
- É... Você não vê.
Silêncio.
- Mas eu sinto muito bem.
Silêncio, silêncio. Uma risadinha nervosa para disfarçar o nervosismo. Uma piadinha para facilitar uma verdade difícil de dizer.
- Ainda bem, não é? A vida sabe, mesmo, o que faz...
            Ela o abraçou. O rosto escondido no peito.
- É... Ela sabe, mesmo, o que faz...
           
            A mesma lágrima que ele viu, ela sentiu.
E o que ele sentiu, ela, sem saber como, também viu.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Reles

Ele olhou para o relógio em seu pulso. Ainda faltavam dez minutos. Tinha tempo para um café.
Enquanto a água esquentava, a xícara, o pote e o açucareiro eram colocados sobre a mesa. Entre olhadelas no relógio, ele preparava.
Antes, um pouco de água morna na xícara fria, apenas para esquentá-la, para não esfriar o café. Em seguida, os torrões. Um pouco depois, a água, quase fervente.
Por fim, o açúcar.
E quando tirou a tampa do açucareiro, ele a viu. Pequena, minúscula e euforicamente perdida naquele deserto doce e branco. Uma simples formiga.
- Ora essa... – Um sorrisinho surgiu no canto de sua boca. – Venha... – E enterrou a colher, cuidadosamente, pegando uma pequena porção de açúcar onde estava a formiga. Mas a danada, amedrontada e alheia à boa vontade dele, pulou da colher e caiu dentro do açucareiro, outra vez.
- Ora, por favor... – Sua voz saiu entrecortada pelo riso. Olhou para o relógio, novamente. Cinco minutos.
- Venha, pequena... Não quero te machucar... – E enterrou a colher, novamente, retirando uma porção de açúcar e a formiga. Novamente, ela pulou.
- Ah, por favor... – Como se uma já não bastasse, mais três formigas surgiram. Deviam estar dormindo ou comendo, enterradas sobre aquela fartura toda.
- Mas que... – Quatro minutos.
Depois de mais duas tentativas, a formiga insistia em pular de volta para o açucareiro, recusando-se a sair. – Bicho estúpido, é só não se mexer... – Três minutos. Agora já não tinha mais graça. Expulsou duas delas, com grandes colheradas de açúcar jogadas no ralo da pia.
Dois minutos. É possível tomar um cafezinho em dois minutos, claro, mas porque se contentar com isso se, antes das formigas aparecerem, ele tinha mais tempo?
Ah, a raiva...
Depois de esmagar as outras duas, ele despejou todo o açúcar na pia e ligou a torneira. Um redemoinho se formou, levando embora as formigas e o café amargo que ele acabara de derramar.
Sua fúria só foi aplacada quando, num último impulso, despejou o resto de água quente no cano da pia. Por um instante, imaginou as pequenas criaturas cozinhando naquela água quase fervente. Regozijou-se. Estava vingado.
Ele não teria de volta o tempo tomado, mas isso não importava. Estava vingado. Sentia-se vingado, e isso o fez sentir-se bem.
Um minuto.
Lavou a xícara, colocou-a no secador, pegou sua bolsa e saiu depressa, correndo contra o tempo. Estava atrasado.

É tão fácil passar do amor ao ódio.
Para isso, bastam três coisas:
Um forte, um fraco e um interesse.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Urgência

Eu preciso de uma mentira
Convincente
Que me faça acreditar na vida,
Outra vez,
Pois as verdades,
Minhas verdades,
Queridas verdades,
Não deixam espaço ao desejo
De viver,
De seguir,
Ou de, tampouco, querer.

Eis, então, a ironia...
As verdades que iluminam, são as mesmas que cegam.
E, naquilo a que tanto me agarrei, hoje tento, aos poucos, me desprender.
Não, não... Não quero abandonar minhas convicções, mas...
Será, mesmo, a ignorância tão necessária à vida?
Me refiro, é claro, à boa ignorância.
Aquela que faz com que humanos sejam humanos.
E apenas humanos.
E, acima de tudo, humanos.

E antes que você me diga: "Ora, mas isso está longe de ser um conto!"
Eu digo a você: "Eu sei... Eu sei... Mas, às vezes, é preciso espairecer..."